quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Doctor Who 50th: "An Adventure in Space and Time"

     A celebração dos 50 anos de Doctor Who, de forma geral, foi muito centrada no que o programa é hoje em dia. No entanto, Mark Gatiss tinha um sonho a concretizar, sonho esse que há uma década tinha começado a planear. Apaixonado por Doctor Who, o seu monumento a essa mesma paixão chegaria ao público no dia anterior ao "The Day of the Doctor" na forma do filme para televisão "An Adventure in Time and Space".

     A primeira coisa que salta à vista perante esta ideia é o seu puro brilhantismo. Mark Gattis encontrara a perfeita homenagem aos 50 anos do programa e apresentava às gerações que não tiveram a oportunidade de presenciar a primeira era do programa (e que até aquele ponto não se tinham intrigado ao ponto de o ir revisitar), apresentada sob uma nova luz e de forma romantizada como apenas a criança interna, criança maravilhada pela primeira vez que entrou em contacto com o mundo de fantasia de Doctor Who, que nunca chega a desaparecer em fãs como Mark Gatiss, seria capaz de demonstrar.



     Tudo no especial é uma carta de amor à essência do programa e, especialmente, ao duo de William Hartnell e Verity Lambert. William "Bill" Hartnell é maravilhosamente interpretado por David Bradley que aborda todas os defeitos tantas vezes associado ao primeiro actor no papel de Doctor. O consumo excessivo de álcool, o seus constantes erros nas falas, os seus ataques de temperamento... Todos eles de algum modo representado mas mesmo esta personagem é devido aos seus defeitos que se torna mais humana e no fim, somos capazes de apreciar a visão geral de quem este homem foi. Uma pessoa que não sabia onde um projecto tão diferente iria dar mas que se apaixonou por tudo o que lhe trouxe e que, no seu intimo, era uma figura afável mas que se deixava abrir a poucos. Ainda hoje Carole Ann Ford irá desfazer-se em elogios se questionada sobre Bill que mesmo fora de cena era uma espécie de avô para a jovem actriz. Ele apaixona-se pelo programa e fica assustado pelas mudanças que começa a sofrer à frente e atrás das câmaras. O momento em que ele próprio, devido à saúde cada vez mais débil é obrigado a sair do papel é de uma dureza e realismo brutais servindo apenas para nos relacionarmos mais com uma figura tão distante. EU já tinha visto os episódios do First Doctor mas acredito poder afirmar que, para quem não tinha conhecimento directo do trabalho de William Hartnell no programa, pode agora verdadeiramente ver o Doctor nesse homem tanto quanto o vê nas interpretações de David Tennant ou de Matt Smith. E sinto que é o melhor elogio que posso fazer à performance de David Bradley e ao guião de Mark Gatiss.


     No caso de Verity Lambert, é nos apresentado uma mulher que recebendo a ideia do criador do programa Sidney Newman, vê a oportunidade que lhe é entregue e dedica-se ao máximo para a aproveitar. A dedicação e perseverança de Verity, que a levaria a tornar-se uma figura importante da BBC e a ser nomeada Officer of the Order of the British Empire em 2002, foram cruciais para, não só o sucesso do programa, mas a sua simples existência. Isto fica comprovado quando, contra o conceito que Sidney defendia, determina a entrada dos Daleks enquanto vilão na segunda história do programa. A "Dalekmania" iria invadir todo o Reino Unido estabelecendo assim o lugar de Doctor Who na programação familiar da BBC.


     A história encontra-se repleta de momentos clássicos que a transformam num gigante "nerdfest" para todos os que adoram a série e, em quase todos os detalhes, o cast escolhido para representar as várias personagens históricas é mais que adequado, arriscando-me até de apelidá-lo de perfeito. Nessa nota, a única crítica negativa prende-se com a decisão de escolher Reece Shearsmith para interpretar Patrick Troughton, no seu primeiro dia no papel de 2nd Doctor. Reece e Mark têm uma boa relação, e não coloco em causa a sua habilidade de apanhar os maneirismos principais da pessoa que tem de interpretar (apesar de não achar que foi muito bem sucedido nessa área), mas isso perde-se no quão distractivo é a sua aparência e em como nada se assemelha à de Patrick Troughton. A idade é a diferença mais óbvia e não consigo deixar de sentir que estou a olhar para um jovem adulto a fazer cosplay. O David Bradley também é mais velho do que William era em 1963 mas a maneira a sua perfeita interpretação torna isso uma questão que desvanece em poucos minutos corridos de filme.


     Em conclusão, Mark Gatiss, que curiosamente não é capaz de escrever um guião de Doctor Who que eu ache acima da média, demonstrou a sua qualidade enquanto escritor e a sua paixão enquanto fã produzindo este especial que do primeiro ao último minuto demonstra que na base de Doctor Who está a mesma paixão, determinação e uma tristeza profundamente bela que caracterizam a sua personagem principal.

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